segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Cultura, ciência, crença.


Não escrevi durante o mês passado por alguns motivos, como ficar um tempo sem computador.Mas hoje, não tive como não postar.

Cultura é algo interessante. Já li algumas coisas sobre sinais, como o de pedir carona no Brasil, que pode significar algo totalmente diferente em outros países.

Estou no centro de Moçambique, entre Malauí, Zâmbia e Zimbábue.E depois de dois meses, eu já não lembro a última vez que tomei banho de chuveiro aqui, só no balde mesmo, o que em um calor de 43ºC , já não é um problema...a água fica quente no balde.

De domingo sei que deverá faltar energia, que o telefone ficará sem área e consequentemente não terei internet.

Quando eu Maurício e Luísa vamos á vila aqui perto as pessoas já nos reconhecem. Mas algo que não me acostumo e nem quero, é quando as crianças começam a sorrir , gritar “azungo” e algumas vezes correr. É sempre divertido, é sempre uma delícia.

Não sei se já comentei, “azungo” é branco em Chewa, uns dos idiomas locais. E uma dica, que ficou clara essa semana, se um dia você decidir vir á África, nunca pense que se você fazer uma criança rir, você já estará feliz e sentirá que fez alguma coisa. Garanto que você estará feliz em 5 minutos e não terá feito nada. Um sorriso aqui ? É muito fácil.

Tenho capulana, que é um tecido que as mulheres usam.Gosto de comer xima, um prato típico, podemos dizer parece um fubá, mas é feito de farinha de milho. Sem gosto, mas é só misturar com algo mais que está tudo bem J

Mas tem algo na cultura que é um pouco complicado de lidar.Como disse no começo estou em uma vila, em Moçambique e rodeada por outros três países. E essa semana descobri algo novo do África, o misticismo.
Um certo dia, começaram a dizer que um morto tinha voltado á viver. Logo de cara pensei, deve ser aquela doença que os batimentos cardíacos ficam tão fracos que pensam que a pessoa está realmente morta. Mas detalhe, enterraram este homem em 2005. Ok, estranho. Perguntamos o que estava acontecendo. Nos disseram que por aqui existem feiticeiros que colocam um cacho de bananas no caixão e as pessoas vêem essa pessoa que pensam estar morta, então esse feiticeiro leva este “morto” para trabalhar na machamba, o que chamamos que horta no Brasil. E como esse feiticeiro morreu, as pessoas estão voltando.

Ok, não sei como isso acontece, para mim é algum tipo de ilusionismo. Perguntei muito sobre isso, me responderam tudo aqui na escola, mas me aconselharam a não perguntar muito aos mais velhos na vila, se eu não acredito eles podem me fazer acreditar, ok novamente. Parei de pensar no assunto. Mas ontem disseram que mais três pessoas “voltaram”.

E hoje, acordei bem as 6 da manhã, me arrumei e fui á casa aqui ao  lado onde tem geladeira para pegar uma água gelada, pois o calor já estava forte. Quando fui entrar na cozinha, vi pela janela algo se mexendo, pensei que era estranho, a porta estava fechada, a luz apagada e algo se mexendo, olhei fixamente e vi uma coruja bem grande ali dentro. Meu animal preferido, se me perguntarem naquelas perguntas “qual sua cor, música ou animal preferido?”.

Então, perguntei ao Pedro, porque estavam prendendo a coruja na cozinha. Mas estava animada, corri para pegar a minha máquina. Quando voltei, José me disse que não adiantava eu pegar a máquina, ela não iria sair na foto.
Como assim ?

Porque a cultura africana diz que coruja é um animal de feiticeiros, leva mensagens. Eu disse que para mim, o pombo correio que levava mensagens. A resposta ? “Sim, também. Mas são mensagens boas. A coruja leva más mensagens”.

Ao mesmo tempo que isso acontecia eu estava conversando com meu namorado, que esteve no Malauí durante 6 meses e teve uma coruja lá, o Harry. Tentaram matar e ele cuidou. Resultado : “Não deixe que matem o primo do Harry!” haha.

Pedi várias vezes para alguém só me acompanhar que eu abriria a porta. Me falavam, com essas histórias que estão acontecendo, o cemitério aqui perto, isso não é coisa boa, se você quiser você pode ir, tem permissão.

Mas depois de tudo isso, ainda acredito que essa história de morto-vivo ainda tem uma boa resposta científica, porém a coruja ainda está lá, eu não fui abrir a porta. Isso quer dizer que eu já não acredito tanto na ciência quando ainda vou passar 4 meses aqui. =P

Uma experiência interessante. Imaginava os primeiros desafios, mas não algo assim. Tenho que fazer algo, e vou começar escondendo melhor o meu diário, que tem na capa o desenho que uma grande e bela coruja. =)


Bom, dá para ver que ela apareceu na foto. 

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