Não escrevi durante o mês passado por alguns motivos, como
ficar um tempo sem computador.Mas hoje, não tive como não postar.
Cultura é algo interessante. Já li algumas coisas sobre
sinais, como o de pedir carona no Brasil, que pode significar algo totalmente
diferente em outros países.
Estou no centro de Moçambique, entre Malauí, Zâmbia e Zimbábue.E
depois de dois meses, eu já não lembro a última vez que tomei banho de chuveiro
aqui, só no balde mesmo, o que em um calor de 43ºC , já não é um problema...a
água fica quente no balde.
De domingo sei que deverá faltar energia, que o telefone
ficará sem área e consequentemente não terei internet.
Quando eu Maurício e Luísa vamos á vila aqui perto as
pessoas já nos reconhecem. Mas algo que não me acostumo e nem quero, é quando
as crianças começam a sorrir , gritar “azungo” e algumas vezes correr. É sempre
divertido, é sempre uma delícia.
Não sei se já comentei, “azungo” é branco em Chewa, uns dos
idiomas locais. E uma dica, que ficou clara essa semana, se um dia você decidir
vir á África, nunca pense que se você fazer uma criança rir, você já estará
feliz e sentirá que fez alguma coisa. Garanto que você estará feliz em 5
minutos e não terá feito nada. Um sorriso aqui ? É muito fácil.
Tenho capulana, que é um tecido que as mulheres usam.Gosto
de comer xima, um prato típico, podemos dizer parece um fubá, mas é feito de
farinha de milho. Sem gosto, mas é só misturar com algo mais que está tudo bem J
Mas tem algo na cultura que é um pouco complicado de
lidar.Como disse no começo estou em uma vila, em Moçambique e rodeada por
outros três países. E essa semana descobri algo novo do África, o misticismo.
Um certo dia, começaram a dizer que um morto tinha voltado á
viver. Logo de cara pensei, deve ser aquela doença que os batimentos cardíacos
ficam tão fracos que pensam que a pessoa está realmente morta. Mas detalhe,
enterraram este homem em 2005. Ok, estranho. Perguntamos o que estava
acontecendo. Nos disseram que por aqui existem feiticeiros que colocam um cacho
de bananas no caixão e as pessoas vêem essa pessoa que pensam estar morta,
então esse feiticeiro leva este “morto” para trabalhar na machamba, o que
chamamos que horta no Brasil. E como esse feiticeiro morreu, as pessoas estão
voltando.
Ok, não sei como isso acontece, para mim é algum tipo de
ilusionismo. Perguntei muito sobre isso, me responderam tudo aqui na escola,
mas me aconselharam a não perguntar muito aos mais velhos na vila, se eu não
acredito eles podem me fazer acreditar, ok novamente. Parei de pensar no
assunto. Mas ontem disseram que mais três pessoas “voltaram”.
E hoje, acordei bem as 6 da manhã, me arrumei e fui á casa
aqui ao lado onde tem geladeira para
pegar uma água gelada, pois o calor já estava forte. Quando fui entrar na
cozinha, vi pela janela algo se mexendo, pensei que era estranho, a porta
estava fechada, a luz apagada e algo se mexendo, olhei fixamente e vi uma
coruja bem grande ali dentro. Meu animal preferido, se me perguntarem naquelas
perguntas “qual sua cor, música ou animal preferido?”.
Então, perguntei ao Pedro, porque estavam prendendo a coruja
na cozinha. Mas estava animada, corri para pegar a minha máquina. Quando voltei,
José me disse que não adiantava eu pegar a máquina, ela não iria sair na foto.
Como assim ?
Porque a cultura africana diz que coruja é um animal de
feiticeiros, leva mensagens. Eu disse que para mim, o pombo correio que levava
mensagens. A resposta ? “Sim, também. Mas são mensagens boas. A coruja leva más mensagens”.
Ao mesmo tempo que isso acontecia eu estava conversando com
meu namorado, que esteve no Malauí durante 6 meses e teve uma coruja lá, o
Harry. Tentaram matar e ele cuidou. Resultado : “Não deixe que matem o primo do
Harry!” haha.
Pedi várias vezes para alguém só me acompanhar que eu
abriria a porta. Me falavam, com essas histórias que estão acontecendo, o
cemitério aqui perto, isso não é coisa boa, se você quiser você pode ir, tem
permissão.
Mas depois de tudo isso, ainda acredito que essa história de
morto-vivo ainda tem uma boa resposta científica, porém a coruja ainda está lá,
eu não fui abrir a porta. Isso quer dizer que eu já não acredito tanto na
ciência quando ainda vou passar 4 meses aqui. =P
Uma experiência interessante. Imaginava os primeiros
desafios, mas não algo assim. Tenho que fazer algo, e vou começar escondendo
melhor o meu diário, que tem na capa o desenho que uma grande e bela coruja. =)
Bom, dá para ver que ela apareceu na foto.
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