domingo, 9 de setembro de 2012

Intensivo : Professora.


Não é 15 de outubro, isso significa que não é dia do professor. Mas eu queria dedicar esse post para os meus professores, incluindo meus pais. =)
Nessas quase três semanas que estou vivendo e trabalhando como formadora na Escola Professores do Futuro estou tendo um intensivo de o que é ser um professor, e não somente saber o quão importante é essa profissão, mas sentir o que é essa profissão.
Meus pais sempre souberam que a educação é de extrema importância, por isso sempre estudei em ótimas escolas com professores bem capacitados, muitos mais do que passar a matéria sabiam como me inspirar para as futuras escolhas.
Chegando em Chiúta, me disseram que eu deveria participar do CP, conselho de professores, deveria escolher uma disciplina para auxiliar. O primeiro CP foi tranquilo, apresentação e assuntos os quais eu ainda não entendia muito bem, mas escolher a matéria não foi fácil. Gostaria de pegar Ciências Sociais, mas em uma das aulas práticas que fui, como se fosse um estágio, vi um dos estudantes daqui escrevendo no quadro aos alunos palavras como : “pençamento” e “centimento” minha primeira ideia foi que por não ser o português do Brasil, essas palavras deveriam ser escritas dessa forma.Na verdade, não. Então escolhi Língua Portuguesa.
Minha segunda experiência foi na quinta passada, das oito da manhã á uma da tarde fui parte do júri de um exame oral. Os estudantes explicando o que eles fizeram nas aulas práticas. 5 horas escutando as mesmas coisas, com alguns realmente mostrando o que sabiam o que estavam falando. Um pouco cansativo e desesperador para mim.
No CP, para comentar as notas dessa avaliação eu disse que os resultados foram condizentes com as práticas que vi, poderiam ser melhores. Mas isso é resultado dos primeiros anos de educação desses alunos, é difícil. Como mudar agora, tão rapidamente, a educação de Moçambique ?  


E nessa mesma reunião outro assunto foi a cópia de trabalhos de 11 estudantes. O quê fazer ? O regulamento não consta medidas para trabalhos, somente provas. Alguns dos professores queriam dar 0, outros achavam que não era necessário. Eu e Luísa não concordamos com a ideia de somente refazer o trabalho, isso é mais do que um ensino médio, se compararmos ao Brasil. Então, refazer o trabalho e levar uma advertência.
Aqui é um internato, isso quer dizer que dividem-se os 97 alunos em dois grupos maiores, eu participei da reunião do grupo maior 1, e assim mais 15 minutos conversando com os estudantes sobre essa atitude.
Também vamos dar aulas de inglês, mas precisamos separar os turmas por níveis, para saber qual matéria passar. Então fizemos um teste. Passei duas horas na máquina copiadora para conseguir ter todas as provas prontas. Na terça a noite passamos a provas e explicamos diversas vezes que não valia nota, era somente para saber o nível, se não soubesse responder era só pular. E mesmo assim escutamos “esse teste não foi bem formulado”! Tudo bem, reclamar é só uma parte da profissão aluno. J




Então senti como é corrigir mais de noventa provas e escutar “ quando vamos saber as notas, quando você vai entregar a prova?” Mesmo que eu estivesse as 9 30 da noite com dois alunos lendo e relendo um texto sobre línguas Bantu, para tentar entender para explicar. Bom, acredito que depois que eu expliquei a parte do português e eles me explicaram a parte da língua local,nós conseguimos entender aquele texto e eles puderam apresentar no dia seguinte.
Na quinta dessa semana eles tiveram prova de matemática e eu fiquei em uma turma de fiscal. Tive que pedir para uma estudante sentar corretamente, troquei um de lugar, pedi duas vezes seguidas para duas alunas não conversarem e pedi para um abaixar a prova. Quando o tempo acaba tenho que retirar a prova de alguns que não querem entregar!
E sabe qual é a pior, melhor parte ? Que eu adoro todos, eles estão sempre dispostos a me ensinar Chewa, a língua daqui.Sempre querendo conversar, abertos a ouvir conselhos, e com um super sorriso ao dizer bom dia, boa tarde ou boa noite. Estou gostando muito desse intensivo.
A minha parte como ex estudante de alguns colégios e futura de uma universidade é : Muito obrigada, professores! :D
Pela preparação de aulas e provas, por encontrar a melhor forma de nos fazer entender o que precisamos, por corrigir minhas provas enquanto eu perguntava “quando você vai entregar a prova?”, por ter paciência, por não acreditar que só uma atitude leva uma pessoa á ser um “caso perdido”, pelos conselhos de professores, que em alguns lugares onde estudei era o dia de folga para os alunos, e  de muitas decisões para os professores. Mais que tudo, obrigada pelo carinho e dedicação que muitos recebem de vocês. J 

domingo, 2 de setembro de 2012

Impressões.


Quando você está fora de casa, conhecendo novas pessoas a todo o momento, e em um lugar bom, como Moçambique, o tempo voa! Cada dia é uma nova descoberta, cada noite é uma incrível oportunidade de dormir muito bem J

Estava recebendo recados de amigos que já terminaram seus projetos em outras partes aqui de Moçambique, fiquei com orgulho. De verdade, senti orgulho por estar aqui, me senti feliz por ter escolhido esse projeto.
Me lembra o Brasil, sim. Pessoas são abertas, são sorridentes, tem arroz, feijão e farofa. Mas ainda não sei bem onde, me sinto segura aqui. Sim, ainda é necessário o desenvolvimento, porém, isso é questão de tempo. E esse calor de pessoas queridas ? Não é tempo que traz, não ;)
Agora entendo quando ouvia dos outros times  “Que saudades do meu projeto! Quero voltar!”. É de agosto á fevereiro, já é setembro, agora é só minha preocupação falando mais alto! :P

Semana passada visitei a escola da vila, os estudantes da EPF foram dar aulas e eu fui ver como é. A verdade é que não é pior que nenhuma das fotos de escolas da África que eu já tinha visto, talvez melhor do que muitas. E acredito que isso de certa forma me fez ficar, confesso que não sei a palavra ao certo, mas vim preparada para muitas coisas. Então entrar numa sala de aula, com alunos descalços, sem cedeiras, com  cadernos sujos e professores despreparados era algo que eu sabia que veria. 





Então, não estava tudo bem, estava tudo sob controle. Mas na terça de manhã estava indo para a escola, bem cedinho, com Luísa. E logo na saída da EPF, encontrei um menininho, disse "bom dia!" ele me respondeu, perguntei se estava tudo bem e ele respondeu que não. Ok, "por quê ?" Ele me disse, "mimba, tem dinheiro para eu ir ao hospital ?" 
Na hora não pensei muito, antes de vir somos por muito tempo aconselhados á não dar dinheiro. Então disse, não e continuei andando, tinha que chegar rápido. E ele nos seguiu, depois não o vi mais. 

Depois descobri que "mimba" é barriga, estômago ou grávida em uma língua local. E que a consulta no hospital é um metical. A vila tem cerca de 5.800 habitantes, isso quer dizer que com o preço de um pouco mais de UMA consulta para uma pessoa nos EUA, daria para pagar uma consulta para cada pessoa da vila no hospital daqui. 

Porém, se ajudasse o menino, teria realmente que ajudar á todos. Me disseram também que ele sabia como agir e o que falar somente para conseguir dinheiro. Pode ser, mas, de qualquer forma não é bom. 

Não, não está tudo sob controle. Mas eu sabia que isso aconteceria, a primeira impressão é que me levou um pouco para um otimismo antecipado. 

De resto, estar na EPF é muito bom! 

Participei de um júri de avaliação de teste oral que durou 5 horas e tive que dar notas! Muito interessante. E essa semana começamos com as aulas de inglês! 

Próximo post falo sobre isso! ;)